
NESTE ARTIGO
Bastidores
Quando comecei a escrever o briefing da marca, escrevi a pergunta errada.
A pergunta que eu tinha na cabeça era: como deveria parecer uma empresa que cuida de contrato, prazo e pagamento? É uma pergunta razoável, e ela tem uma resposta pronta que o mercado inteiro já usa. Azul. Cinza. Muito espaço em branco. Um ícone de escudo em algum lugar. A estética de quem está pedindo para ser levado a sério.
Rodei uma primeira leva de estudos nessa direção — mais abstrata, mais contida, uma linguagem de "explosão" sem ninguém dentro dela. Olhei o resultado e não senti nada. Estava correto e estava morto. Guardei aquele material como registro do que não convenceu, porque errar assim documentado é mais útil do que acertar por sorte.
O problema não era a execução. Era a pergunta.
Como o material é feito: Midjourney, e o que isso significa
Antes de continuar, o processo, porque ele importa para o resto do texto fazer sentido.
As ilustrações da marca Boom são geradas com Midjourney, a partir de prompts que eu escrevo e reescrevo. Não há um ilustrador contratado por trás delas. Estou dizendo isso na primeira pessoa e em voz alta porque um blog que se propõe a falar de prova e de registro não pode ter uma peça própria cuja origem depende de ninguém perguntar.
E porque o processo é a parte interessante, não a parte constrangedora.
O que existe no repositório do projeto é isto: um briefing de marca que foi da versão 1.0 à 1.9 antes de fechar, três versões de um arquivo só de prompts, e uma nota de curadoria escrita para o meu eu futuro dizendo o que d
escartar. Uma delas manda jogar fora qualquer resultado que caia num certo vício tipográfico, e termina assim: "se nenhuma imagem convencer nesse sentido, é sinal real de que a direção pode não sustentar — volte para o briefing antes de insistir."
Essa frase é o trabalho todo. A ferramenta gera. Ela não sabe quando parar, não sabe o que está errado, e não tem nada a perder se o resultado for bonito e sem sentido. Quem decide que uma leva inteira vai para o lixo, e por qual critério escrito, é uma pessoa. Foram nove versões de briefing porque nove vezes a resposta certa não era um prompt melhor — era uma decisão que ainda não tinha sido tomada.
Isso não é um detalhe sobre design. É a mesma posição que temos sobre o produto: máquina propõe, gente decide, e o que vale no fim é o que ficou registrado.
A pergunta certa
Uma campanha não acontece porque existe um contrato. Ela acontece porque alguém acordou e decidiu falar de uma marca com a própria voz, para gente que confia nessa voz. O contrato é o que protege isso. Não é o que causa isso.
Marketing, venda, uma empresa inteira — no fim, tudo é função de quanta vida as pessoas colocam ali dentro. Um creator que ama o que representa move mais do que qualquer verba. Uma marca que tem gente de verdade falando por ela cresce diferente de uma marca que compra espaço. Essa energia é a matéria-prima do negócio. Tudo o que estamos construindo existe para que ela não se perca no caminho entre o "topa fazer" e o pagamento que chega.
Então a pergunta virou: como se parece essa energia?
E a resposta ficou óbvia no segundo em que a pergunta mudou. Ela se parece com gente.
Por que a marca é feita de pessoas
A identidade do Boom é um mosaico de rostos. Não ícones, não formas abstratas, não aquelas ilustrações de personagens sem traço que todo produto de tecnologia usa desde 2019. Rostos.
Eles são geométricos e chapados de propósito — construídos com poucas formas, cor sólida, zero degradê, um grão fino por cima que dá textura de coisa impressa em vez de coisa renderizada. É uma linguagem que vem do design gráfico editorial, não da interface. Cada retrato é reduzido ao mínimo: um perfil, um chapéu, um brinco, um óculos, uma janela atrás. Nada é detalhado o suficiente para descrever uma pessoa específica, e é exatamente esse o ponto — todo mundo cabe.
E eles nunca aparecem sozinhos. Aparecem em grade, encostados uns nos outros, dividindo borda e cor. Um creator ao lado de outro creator. Uma pessoa e a cidade dela. É uma decisão sobre o que estamos construindo: nada disso funciona no singular. A grade é a tese.
Sobre a cor: mudamos de ideia
O briefing original pedia paleta quente e contida — coral, terracota, âmbar queimado. Sofisticado. Seguro.
Não sobreviveu ao primeiro teste real. Quando você põe uma paleta contida ao lado da coisa que ela deveria representar, ela parece um pedido de desculpas. Quem cria conteúdo não vive num mundo de terracota.
O que ficou é o oposto: vermelho, azul cobalto, verde bandeira, amarelo cromo e rosa, em blocos chapados, sem hierarquia entre eles. Cinco cores que brigam e nenhuma que ganha — porque a variedade de quem vai usar isso também não tem hierarquia. Um creator com mil seguidores e um com dois milhões entram pela mesma porta.
O símbolo segue a mesma lógica. Quatro letras em quatro blocos, um quadrado, dois O's que viraram dois círculos sólidos. Sem efeito, sem contorno, sem sombra. Funciona a 24 pixels num ícone de aplicativo e funciona ocupando uma parede. Uma marca que precisa de tamanho para funcionar é uma marca fraca.
Onde a energia para
Aqui está a parte que importa mais e que ninguém percebe olhando o moodboard: a festa não entra em todas as telas.
A cor cheia vive na porta de entrada, na comunicação, na hora de comemorar uma campanha que fechou. Ela não entra na tela onde você lê os termos do que está aceitando, nem na tela onde você confere quanto vai receber e quando. Essas usam uma versão contida da mesma paleta, uma tipografia monoespaçada — daquelas de código e de extrato bancário — e nenhuma decoração. Números e cláusulas devem parecer números e cláusulas.
Virou regra escrita no briefing, com um teste de uma linha: tela em que alguém decide sobre dinheiro ou obrigação não pode ter ilustração. Se tem, está errada.
É a mesma ideia em duas superfícies diferentes: alegria onde a alegria é verdadeira, sobriedade onde o que está em jogo é o seu dinheiro. Marca que trata as duas coisas do mesmo jeito está mentindo em uma das duas.
Nada aqui é decoração pendurada por cima do produto. Uma marca funciona quando ela é o mesmo argumento do produto, dito de outro jeito e mais rápido. O nosso argumento é que a energia das pessoas é o ativo — e que ela merece papel, prazo e registro à altura.
Por isso a marca é barulhenta. E por isso ela sabe a hora de calar a boca.

